Monday, September 22, 2008

PRECE DA GRATIDÃO

Senhor, eu gostaria de dizer-te
que amo a vida,
que para mim é bela e consentida.
Muito obrigado Senhor,
pelo que me deste, pelo que me dás.
Obrigado pelo ar, pelo pão, pela paz.
Muito obrigado pela beleza
que os meus olhos vêem
no altar da natureza...
Olhos que fitam o céu, a terra e o mar...
que acompanham a ave que corre
faceira pelo céu de anil...
Que se detém na terra verde
salpicada de flores em tonalidades mil...
Muito obrigado Senhor,
porque eu posso ver meu amor.
Mas, diante da minha visão
eu detecto os cegos que se debatem na escuridão
que andam na solidão, que tropeçam na multidão...
por eles eu oro e a ti eu imploro com miseração
porque eu sei que depois desta lida,
na outra vida, eles também enxergarão.

Muito obrigado pelos ouvidos meus,
Ouvidos que ouvem o tamborilar
da chuva no telheiro, a melodia do vento
nos ramos do salgueiro
e as lágrimas que vertem nos olhos do mundo inteiro...
Ouvidos que ouvem a música do povo
que desce do morro na praça a cantar...
a melodia dos imortais
que a gente ouve uma vez
e não esquece nunca mais!
A voz melodiosa e a voz melancólica do boiadeiro
e a dor que geme,
que chora no coração do mundo inteiro.
Pela minha faculdade de ouvir,
pelos surdos eu te quero pedir.
Eu sei que depois desta dor,
no teu Reino de Amor eles também ouvirão.

Muito obrigado Senhor pela minha voz,
mas também pela sua voz,
pela voz que ama, que canta, que evangeliza,
que ilumina, que alfabetiza,
pela voz que salteia uma canção,
pela voz que teu nome profere.
Por sentir emoção, pela minha alegria de falar.
Pelos mudos eu te quero rogar,
por aqueles que sofrem de afazia,
que não falam de noite, que não cantam de dia.
Oro por eles, eu sei que depois desta prova,
na vida nova eles cantarão.

Obrigado pelas minhas mãos,
mas também pelas mãos que amam,
que semeiam, mãos que agasalham,
mãos de ternura que libertam da amargura,
mãos que apertam mãos,
mãos de caridade, de solidariedade,
mãos dos ateus que limpam feridas,
que enxugam lágrimas e suores das vidas,
pelas mãos de psicografias,
mãos de poesias, mãos de cirurgias,
mãos de sinfonias,
pelas mãos que atendem a velhice a dor e o desamor,
pelas mãos que no seio embalam
o corpo de um filho alheio sem receio
e pelos pés que me levam a andar sem reclamar,
pela minha faculdade de caminhar,
pelo meu corpo perfeito eu te quero louvar,
porque eu vejo na terra
infelizes, aleijados, amputados, marcados, deformados, paralisados
e eu posso bailar.
Rogo por eles, eu sei que depois desta expiação,
na outra reencarnação eles também bailarão.

Obrigado por fim, pelo meu lar,
é tão maravilhoso Senhor ter um lar,
não é importante se este lar é uma mansão
ou uma tapera,
um gramado de dor ou um bangalô,
um ninho, seja lá o que for, uma casa no caminho,
mas que dentro dela exista a figura do amor,
do amor de mãe ou de pai, de filho ou de irmão,
de mulher ou de marido, de um amigo,
alguém que nos dê a mão,
pelo menos a companhia de um cão,
porque é triste viver na solidão...
mas se eu a ninguém tiver para me amar,
nem um teto para me agasalhar,
nem alguém para me amparar,
nem aí blasfemerei, porque eu tenho a ti,
nem reclamarei,
porque nasci.

Muito obrigado, por fim, pelo teu Amor.
Muito obrigado Senhor.


Amélia Rodrigues-espírito
Psicografia de Divaldo Pereira Franco

1 comment:

Michelle Trindade said...

Que bom que você encontrou essa prece... ela é linda mesmo...