Saturday, January 27, 2007

Discutindo Educação

Nas últimas duas semanas ocupei o meu tempo na íntegra, em um curso de Férias promovido pelo Instituto de Bioquímica Médica na UFRJ, que teve com o intuito a melhoria na formação de professores do Ensino fundamental e médio, pelo menos isso era o que dizia. O professor escolhe um dos 4 temas apresentados (“Temperatura e vida na Terra”, “Sangue: o fluido da vida”, “Por dentro dos alimentos” e “Insetos: por que nos transmitem doenças?”) e, eu escolhi “Sangue: o fluido da vida”. O tema parecia ser bem interessante... Bom, infelizmente o curso pouco atendeu a minha expectativa. A primeira semana do curso foi de aulas práticas sobre sangue, era possível fazer diversas experiências com sangue, porque o laboratório dispusera de recursos para tal. Nós, professores, elaborávamos uma hipótese (relativamente à nível universitário), e comprovávamos através das experiências elaboradas por nós mesmos, sem a ajuda teórica dos monitores. A impressão que eu tive foi de um “cursinho de aulas práticas de laboratório” e, não de um curso para professores. Como a maioria dos professores, eram graduados em licenciatura plena, era possível notar a dificuldade em técnicas laboratoriais. No primeiro dia de aula, os monitores perguntaram para o meu grupo, o que nós queríamos fazer, ou seja, qual o experimento que nós realizaríamos. O meu grupo, infelizmente influenciado por mim, pensava ativamente em um experimento que poderíamos elaborar em sala de aula, baseando o experimento no conteúdo programático de ciências e o que poderíamos ter de materiais laboratoriais, ou seja, algo “barato” para a realização do mesmo. Depois, descobrimos que esse não era o objetivo do curso, mas sim a realização dos experimentos com sangue, de acordo com os materiais que ali se disponibilizavam. A primeira semana se passou e, eu não consegui atender as minhas expectativas, pelo menos na parte prática do curso. Não vou dizer que o curso foi de um todo ruim, devo informar que aprendi algumas técnicas e um pouco de teoria acerca do assunto, mas não escondo a minha insatisfação, pois acreditei que eu aprenderia váaaaaarias técnicas relativamente fáceis, com poucos materiais, e bem acessível a realidade do professor atual, ou seja, algo que eu pudesse repassar para os meus alunos atuais e futuros. E, para completar, o último dia da semana prática, tivemos que fazer um “teatrinho” ridículo sobre o que aprendemos ao longo da semana para os professores dos outros cursos. Eu devo ter um “espírito de velho” ou algo assim, porque para mim, aquilo não fez o menor sentido e tudo foi uma completa palhaçada (gostaria de postar as fotos, mas não quero expor as pessoas). Procurei pensar, em como isso poderia contribuir para a minha formação como professora, mas não obtive sucesso. Praticamente, foi a banalização do professor...
Segunda semana... Somente aulas teóricas, então pensei... Vai ser melhor!!! Erro meu!
Na segunda semana, ocorre um curso para os alunos do ensino médio (com os mesmos 4 temas) ao mesmo tempo em que os professores estão tendo aulas teóricas. No primeiro dia, alunos e professores ficaram juntos no mesmo auditório e, realizaram uma brincadeira com os alunos, tipo um “show do milhão”. Alguns dos monitores se fantasiaram como Silvio Santos e outros personagens do programa. A idéia foi boa, mas no final foi horrível. Tudo bem querer fazer algo engraçado para os alunos, isso é bem motivador, ao invés de ficar “tacando” giz no quadro, mas o problema maior foi a forma como isso foi colocado. Eles elaboraram umas perguntas altamente “idiotizadas” para os alunos responderem na frente de tooodo o auditório, perguntas nas quais não tinha como errar. Era por exemplo:
Se na região polar existem ursos e pingüins, porque o urso não come o pingüim?
a) porque estão em pólos diferentes
b) porque o urso pensa que o pingüim é o garçom
c) porque o pingüim tem gosto ruim
d) porque o fato do pingüim ser monocromático impede a visão do urso

Pelo amor de Deus, é chamar o aluno de “burro” ou algo do tipo. Por que não fizeram uma brincadeira dessas com perguntas inteligentes e de conteúdo? O pior é que teve uma pergunta dessas que uma aluna errou, imagina como ela deve ter se sentido...
Ao longo da segunda semana tivemos palestras (somente para os professores) de diversos assuntos, menos de educação (exceto uma única palestra, na qual foi excelente), ou seja, vários assuntos de biologia, o que é pior, os assuntos eram relacionados a pesquisa científica. É lógico que gosto também da pesquisa científica, inclusive estou nela, mas achei que não tinha o menor sentido ter essas palestras nesse curso, o público era de professores e não de pesquisadores! E, no penúltimo dia, para piorar, fizemos visitas a alguns laboratórios de pesquisa da UFRJ, na qual o pesquisador explicava a linha de pesquisa do seu laboratório, além de: - isso é uma sala de cultura; isso é um espectrofotômetro; isso é uma estufa; isso é um PCR; isso é um fluxo... Deprimente!
Bom, mas nem tudo foram pedras, tivemos flores no curso... O último dia foi fantástico!
Pela manhã, tivemos apresentações artísticas (em forma de teatrinho) realizadas pelos alunos sobre o que eles aprenderam ao longo da semana. Eu acho interessante mesclar a arte com a ciência, pois isso tudo estimula a criatividade dos alunos e, ainda a integração e alegria deles. E, ainda para completar o fechamento, à tarde, tivemos apresentação de teatro sobre a “evolução da ciência”, desde os primeiros hominídeos até a chegada do homem à lua, assim como descrito no livro de Leopoldo de Meis sobre o “Método Científico”. Devo dizer que foi bastante didático e interessante, dando noções complexas de ciência vinculadas à arte. No final, professores e alunos receberam 2 livros de Leopoldo de Meis, 2 DVDs de ciência e ainda uma apostila sobre o curso escolhido.
Enfim, a conclusão é: a ciência não deve ser privilégio de sábios e eruditos, ela deve se estender a todos os que querem aprender, é o antídoto universal contra o obscurantismo cultural, palavras de Erney Camargo. Essas técnicas na qual eu aprendi, foram muito boas para mim, mas de nada adiantou se minhas intenções eram torná-las acessíveis para os alunos, deveria sair da universidade e chegar às escolas. O curso foi bom, desde que se tenha outro objetivo. Eu faria esse curso novamente, mas digamos que.... com outros olhos .... outras expectativas....

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